[Mangá] Ghost in the Shell

O mangá cyberpunk Ghost in the shell, é uma trama intricada de ficção científica a frente de seu tempo, como seu nome sugere, “fantasma na casca”, em que interpretando o contexto se trata de consciência em um corpo sintético, ghost, a consciência é aquela em que os humanos possuem e o sintético, shell, fica por conta da máquina, do inorgânico.

major gifPor volta de 1989, a autor Masamune Shirow idealizou o mundo em 2029, onde a tecnologia seria parte do ser humano e não somente um criação da humanidade, em que partes do corpo podem ser facilmente substituídas por peças inorgânicas, aprimoradas, as pessoas possuem a capacidade de fazer transferência e leitura de dados por dispositivos instalados na região da cabeça e nuca. Contudo, como todo grande avanço, existe o nascimento de um novo risco, os hackers estão com mais espaço e crimes cibernéticos podem levar a morte direta, sem falar na possibilidade de invasão do cérebro alheio e manipulação de memórias de qualquer um, basta ter o acesso, por outro lado “surge” novos indivíduos, os mais singulares em aprimoramento, os ciborgues.

Como o título sugere, a consciência em um corpo robótico, é um ciborgue, na obra, especificamente a protagonista, Motoko Kusanagi, mais conhecida como Major e a mais impiedosa investigadora e resolutora de crimes cibernéticos – o terrorismo do futuro -, ou até mesmo rebeliões das mais avançadas produções tecnológicas, em que o temor a se tornar berserk (produto ultrapassado) afeta a inteligência de alguns robôs e reações agressivas podem pôr em risco o equilíbrio raso de humanidade e tecnologia (para referência, a obra Eu, Robô, possui basicamente essa premissa).

Somente com sua consciência humana em um corpo totalmente aprimorado, Motoko é uma unidade que supera as máquinas e os humanos, a combinação de força de uma máquina e raciocínio humano a tornam letal, a sua falta de tato sentimental a torna fria para muitos, porém a característica calculista dela a põe a frente, para se afeiçoar a ela como um leitor exige mais dedicação do que em um personagem usual, a Major é como uma união de comandos, mas é quando sua insegurança quanto ao seu encaixe no mundo que a torna mais tangível surgem na superfície, que ela demonstra sua humanidade, além de suas interações com o sempre presente companheiro de equipe Batou, que junto a Aramaki sempre marca presença na obra junto a Kusanagi, mesmo nas produções baseadas nesse enredo.

Mais um ponto muito positivo para o mangá são os personagens, que por sua vez são bem construídos e se envolvem na trama com suas características próprias de forma a equilibrar a própria personalidade da Kusanagi. Como citei o Batou acima, ele é humano e possui aprimoramento nos olhos, as poucas vezes em que ela demonstra certa redutibilidade é na presença dele, por vê-lo como o mais próximo de um amigo, Shirow não só criou uma personagem feminina sólida, como também desenvolveu personagens secundários marcantes, um universo completo que após escapar da influência de se tornar uma obra com fan service desnecessário como vemos em muitas HQ’s, se eternizou também como inspiradora para a saga Matrix, isso é poder, meus caros!

Nunca existiram relatos de dores de barriga, ou outro tipo de condição médica relacionados com o fato de alguém engolir o seu próprio orgulho. – Daisuke Aramaki, Ghost in the shell – 1995

O sucesso do sci-fi foi tal que conta com uma vasta seleção de produções, adaptadas ou baseadas no enredo de Shirow, segue a impressionante lista:

  • Ghost in the shell – 1995 (Filme)
  • Ghost in the Shell 2: Innocence – 2004 (Filme)
  • Ghost in the shell 2.0 – 2008 (Filme)
  • Ghost in the Shell: Stand Alone Complex – 2002 a 2003 (Anime)
  • Ghost in the Shell: Stand Alone Complex 2nd GIG -2005 (Anime)
  • Ghost in the Shell: Stand Alone Complex – Solid State Society – 2006 (OVA)
  • Ghost in the Shell: Arise – Border:1 Ghost Pain – 2013 (Filme)
  • Ghost in the Shell: Arise – Border:2 Ghost Whispers – 2013 (Filme)
  • Ghost in the Shell: Arise – Border:3 Ghost Tears – 2014 (Filme)
  • Ghost in the Shell: Arise – Border:4 Ghost Stands Alone – 2014 (Filme)
  • Ghost in the Shell: Arise – Alternative Architecture – 2015 (Anime)
  • Ghost in the Shell – 2015 (Filme)
  • A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell – 2017 (Filme)

Versoes da MajorAcha que está pouco? Calma, pois o estúdio Production I.G anunciou a produção de mais um anime para o universo de Masamune Shirow, sob direção de Kenji Kamiyama (Ghost in the Shell: Stand Alone Complex) e Shinji Aramaki (Captain Harlock e Appleseed).

Live-action A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell:

No longa de 2017, a produção não decepciona – mesmo após o escândalo envolvendo whitewashing – Scarlet é apresentada como a ciborgue que faz parte do Setor 9, Miura, Major Miura, setor responsável pelo combate de crimes cibernéticos, que em suas memórias tem um passado turbulento que a fez perder sua família e seu corpo orgânico.

Com uma boa dose de referências retiradas da animação original de 1995, o filme retoma a faceta de uma protagonista durona, sem meios termos e direta, em companhia da equipe de membros da Seção 9 que trabalha junto com ela, com destaque bastante assertivo em Batou, o mais próximo dela e capaz de trazer à tona reações emotivas da Major, desde que a personalidade sólida e rígida da personagem remete a condição de ciborgue da mesma, sendo o seu ghost ainda não o bastante para lhe conferir mais humanidade nas reações, menos ainda nas ações, o andar se destaca pela artificialidade dos trejeitos.

As divergências mais explícitas do mangá para o filme de 2017 ficam por parte da centralidade do enredo, enquanto Ghost in the shell mantém o foco no drama político em contraposição aos avanços cibernéticos, em A Vigilante do Amanhã, é a própria tecnologia que assume esse papel como trama principal. A citação como Motoko Kusanagi, nome original da personagem só vem a tona em meio ao desenvolvimento da trama, o que convenientemente serviu como uma forma de justificar a troca na nacionalidade da atriz que interpreta a Major

Major 2017O cenário do filme com certeza merece toda a atenção, desde que um futuro “surrealista” compõe tudo o que perpassa do mundo da trama, os efeitos convencem e deslumbram – principalmente uma pessoa como eu que não é uma expert em CGI – pela boa representação, desde aos anúncios tecnológicos, como a realidade virtual que faz parte da rotina humana. Cenas marcantes como o uso da tecnologia de camuflagem termo-ótica, são presenças marcantes no filme e claro tem todo o seu destaque como um grande marco de presença da Major.

Pessoalmente, fiquei surpresa com o filme, não esperava que fosse ser bom, no entanto me vi fissurada pelos marcos da trama original surgindo e da animação de 1995, o filme não só foi bem construído no termo geral, como a produção teve o cuidado de adaptar a concepção do mundo intelectualizado de Shirow em 1989, o cenário mais tangível com o realidade tecnológica atual permeou uma reflexão magistral, recomendo o filme para quem é fã do mangá, do filme de 95 também, é um deleite de lembranças e para os curiosos, se tiver aquela companhia que já viu o original ainda melhor, vai ser uma troca magnânima com toda a certeza.

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